A História dos Dízimos

Estudos Bíblicos - publicada em 01/01/2012

A HISTÓRIA DOS DÍZIMOS

INTRODUÇÃO

As Escrituras Sagradas são permeadas de situações mostrando que Deus não olha o exterior do homem, mas se agrada do coração sincero, grato e disposto a obedecer.

No que se refere aos dízimos e demais contribuições materiais, o Senhor sempre os requereu aos filhos de Israel. Mas, mesmo no período da Lei, no Antigo Testamento, quando sacrifícios e holocaustos eram freqüentes, Ele se alegrava com as ofertas voluntárias. Isto é observado em diversos momentos. Ainda na construção do Tabernáculo, Deus fala através de Moisés: "Tomai, do que tendes, uma oferta para o Senhor; cada um, de coração disposto, voluntariamente a trará por oferta ao Senhor: ouro, prata, bronze..." (Ex 35.5). E o povo atendeu e "o que tinham era suficiente para toda obra que se devia fazer e ainda sobejava" (Ex 36.7). Em I Crônicas, o Rei Davi, ao fazer os preparativos para a construção do templo, diz ao povo: "Quem, pois, está disposto, hoje, a trazer ofertas liberalmente ao Senhor?" (29.5). O povo se dispôs e "se alegrou com tudo o que fez voluntariamente porque, de coração íntegro, deram eles liberalmente ao Senhor" (29.9). E Davi orou: "Bem sei, meu Deus, que tu provas os corações e que da sinceridade te agradas; eu também, na sinceridade de meu coração, dei voluntariamente, todas estas coisas; acabo de ver com alegria que o teu povo, que se acha aqui, te faz ofertas voluntariamente" (29.17).

No Novo Testamento, Deus revela Sua graça e Seu amor através de Jesus. Graça remete a reconhecimento e amor, a comprometimento. Embora liberto e tendo liberdade em Cristo, o povo de Deus ainda mais é convidado a contribuir voluntariamente. Em II Co 9.6,7, Paulo diz: "E isto afirmo: aquele que semeia pouco, pouco também ceifará; e o que semeia com fartura, com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria". O Senhor continua o mesmo: Seu coração é comovido não pelo alto valor da contribuição ou pela necessidade pessoal, mas porque sonda e conhece a disposição de cada um em contribuir e investir no Seu Reino voluntariamente.

Hoje, no entanto, o que se tem visto são pessoas cada vez mais pensando em si próprias, sem se preocupar em contribuir na igreja local, aonde são abençoados e usufruem o conforto e de cuidados pastorais e dos irmãos. Por outro lado, líderes religiosos têm buscado todas as formas de artifícios para levarem o povo a contribuir de maneira compulsória e prometendo bênçãos em troca que nem o próprio Deus promete. Há, ainda, o mundo secular, que utiliza tantos absurdos cometidos em nome do Senhor para criticar os cristãos que colaboram financeiramente.

Diante deste quadro, há somente uma forma de garantir ao cristão a maneira segura e correta de agir: estudando a Palavra de Deus.

Este estudo tem como objetivo fazer uma análise histórica da prática do dízimo à luz das Escrituras Sagradas, tendo como base os significados religioso, cultural e político do dízimo no Antigo e no Novo Testamento.


CAPÍTULO 1


DÍZIMO NO ANTIGO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO

A palavra dízimo é encontrada em todo o Antigo Testamento, ficando bem definido o seu significado, principalmente após a entrega da Lei ao povo hebreu.
No Antigo Testamento temos duas palavras para dízimo:
1. Asar - "dez", "décima parte". Com o sentido de dízimo aparece sete vezes: Gn. 28.22; Dt. 14.22; 26.12; I Sm 8.15,17; Ne 10.37,38. A raiz original desse termo significa "acumular", "crescer", "ficar rico".
2. Maaser - "décima parte", palavra usada trinta e duas vezes, como em Gn. 14.20; Lv. 27.30-32; Nm. 18.24,26; Dt. 12.6,11,17; II Cr. 31.5,6,12; Ne 10.37,38; Am. 4.4; Ml. 3.8,10.


1.1. O DÍZIMO NO PERÍODO PATRIARCAL

Nesse período, a unidade social existente eram as tribos, que constituíam em um grupo autônomo de famílias descendentes de um mesmo antepassado, o que favorecia a movimentação e a segurança dos integrantes, já que os patriarcas tiveram uma vida nômade ou seminômade no deserto.
Por existirem tribos diferentes em uma mesma região e os limites, às vezes, serem flutuantes, dava-se lugar a disputas relativas às transumâncias, aos pastos ou às aguadas. Na Bíblia, encontramos relatos de conflitos, principalmente a respeito do uso dos poços ou das cisternas, como em Gn. 13.7; Gn. 21.25 e Gn. 26.19-22. Se tais disputas não fossem resolvidas amistosamente, o chefe ou líder da tribo decidia pela guerra e todos os homens deveriam participar. Normalmente, os despojos das guerras eram divididos entre os combatentes, tendo o chefe direito a uma parte maior, que era a quarta parte do montante. Já no reinado de Davi, quando Israel já existia como nação, o saque era repartido pela metade com os combatentes e com os que ficavam na retaguarda, sendo uma parte dada ao líder (I Sm. 30.20-25). Em Nm. 31.25-30, remonta-se essa instituição ao período que estiveram no deserto, sendo a parte do chefe um tributo a Javé e aos levitas.

Percebe-se, assim, que toda a estrutura existente na instituição de Israel como nação já tinha como base a organização primitiva de seus antepassados e, já nessa época, encontra-se alusão aos dízimos.

Em Gênesis 14.20 Abraão apresenta a décima parte dos despojos da guerra a Melquisedeque, rei-sacerdote de Salém, que simbolizava um sacerdócio superior ao de Aarão, pois refletia o sumo sacerdócio do próprio Cristo (Hb. 7.2-9). Não há informações no texto do motivo pelo qual Abraão entregou-lhe o dízimo, podendo ser por reconhecimento, temor ou tributo, nem se era uma prática habitual. Segundo João Falcão Sobrinho, "a motivação do patriarca estava na fé... seus dízimos atestam sua fé em Deus".
Posteriormente, em Gênesis 28.22, é dito que Jacó devotou o dízimo a Deus, em decorrência de sua experiência em Betel. Tal voto mostra uma atitude espontânea de gratidão pelas bênçãos que Deus o daria. Não é possível saber como e quem o receberia em nome de Javé.
G. F. Hawthorne comenta que "é provável que o dízimo fosse um elemento esporádico na tradição religiosa dos patriarcas, ligado à necessidade de"retribuir" a Deus as suas dádivas, como na vitória em uma batalha, ou no sucesso de uma jornada importante. Seria, então, uma maneira de demonstrar gratidão a Deus e de reconhecer seu direito soberano sobre os sucessos da vida".

Neste Período Patriarcal, portanto, o conceito de dízimo já existia, embora não parecesse fazer parte regular do culto religioso como um processo contínuo e específico e não haja relatos da formalização desse costume.


1.2. O DÍZIMO NO PERÍODO DA LEI MOSAICA

A partir da Lei dada por Deus ao seu povo através de Moisés, o dízimo passa a exercer um papel importante no contexto sócio-político-religioso da nação de Israel. Não se pode confundir o "dízimo dos israelitas" com os mencionados em Gn. 14 e 28 e nem com os de outros povos.
Em um sentido mais amplo, os dízimos dos israelitas é a entrega à tribo de Levi da parcela que lhe coube como herança na Terra Prometida (Nm. 18.20-24), já que não recebeu uma parte da terra objeto da conquista a que teria direito. A Aliança Mosaica tem como centro o sacrifício, e o culto nesse período significava e atualizava essa união de Deus com Seu povo através da instituição do sacerdócio de Arão após a Páscoa (Ex. 28.29).
Em Ex. 13, o Senhor protege a vida dos primogênitos na noite de Páscoa e estes Lhe pertenciam. Agora, Deus toma os levitas em lugar dos primogênitos (Nm. 3.11,12) para servir no tabernáculo, ensinar a lei e ajudar os sacerdotes. Os levitas recebiam o dízimo das outras tribos, que, por sua vez, dizimavam aos sacerdotes (Lv. 18.28). Os levitas também estariam dispersos por todas as partes a fim de que seus serviços estivessem ao alcance de todo o povo hebreu, devendo ser sustentados pelos dízimos dos israelitas. A Bíblia esclarece, assim, que o dízimo representa a porção da herança da Terra Prometida devida à
Tribo de Levi, separada para o exercício do sacerdócio: a herança que lhes coube é o próprio Deus, significado no que Lhe é destinado no sacrifício:

"Disse também o Senhor a Aarão: Na sua terra, herança nenhuma terás e, no meio deles, nenhuma porção terás. Eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel" (Nm. 18.20).

"Mas os levitas farão o serviço da tenda da congregação e responderão por suas faltas; estatuto perpétuo é este para todas as vossas gerações. E não terão eles nenhuma herança no meio dos filhos de Israel. Porque os dízimos dos filhos de Israel, que apresentavam ao Senhor em oferta, dei-os por herança aos levitas..." (Nm. 18.23,24).

Facilmente, percebe-se que o dízimo não era pagamento, nem donativo, nem contribuição gratuita, mas era herança da Tribo de Levi, o qual recebiam com justiça, pois o Senhor assim havia determinado.

"Quando se faz um estudo mais profundo do sistema de dízimos no Pentateuco surgem algumas dificuldades nos textos, apresentando algumas divergências", segundo G. F. Hawthorne.

O mesmo assegura que se pode verificar, pelo menos, cinco momentos das leis dos dízimos, abaixo relatadas de maneira sucinta:
1. O povo deveria dar os dízimos de todos os produtos da terra e dos rebanhos. Havia a possibilidade de resgate dos dízimos apenas das colheitas (Lv. 27.30; Dt. 12.6; 14.22-23; 26.12-13).
2. Os dízimos pertencem ao Senhor (Lv. 27.30) - somente em Lv. afirma-se explicitamente que os dízimos são do Senhor e só nesse livro não se atribui o dízimo aos levitas. Seu propósito imediato era o sustento dos levitas em troca dos serviços prestados. Por sua vez, os levitas davam o dízimo dos dízimos aos sacerdotes (Nm. 18.21-32; Dt. 12.12; 19; 14.27; 26.12,13).
3. Outro propósito dos dízimos era o auxílio dos necessitados - o estrangeiro, o órfão, a viúva - que não ficariam desamparados em Israel (Dt. 14.28,29; 26.12,13).
4. Ainda outro propósito dos dízimos era a celebração de uma refeição cultual pelas famílias do Povo de Deus, juntamente com os levitas em suas respectivas cidades (Dt. 12.12).
5. Havia duas maneiras distintas de se entregar: anualmente o dízimo era levado ao Templo (Dt. 12.5; 11; 14.23) e entregue aos levitas; e, a cada três anos, o dízimo permanecia nas diferentes cidades de Israel, sendo entregue aos levitas e aos necessitados. No caso do dízimo anual, era possível sua substituição por moeda (Dt. 14.24-27).

Apesar de diferentes interpretações, pode-se verificar nos cinco itens anteriores que houve um desenvolvimento na legislação do dízimo, de Levítico a Deuteronômio, sendo proporcional ao estabelecimento do povo como nação. Isto é, em Levítico há referência do dízimo de uma forma ampla, geral, apontando os princípios básicos de sua existência. Em Números, determina-se que os levitas receberão os dízimos como porção do Senhor. Nm. 18 mostra a situação do povo não estar ainda estabelecido na terra. Em Deuteronômio, a lei dos dízimos parece apontar para um futuro estabelecimento na Terra, sendo os mesmos entregues no local escolhido por Javé.
Considerando o período que se passou, as mudanças e fatos ocorridos com o povo no deserto e posteriormente, verifica-se que a lei dos dízimos também não foi cumprida de modo uniforme e sistemático. Todas as demais referências ao dízimo, fora do Pentateuco, indicam que o povo descumpria a lei e foram necessárias diversas reformas e intervenções divinas (cf. II Cr. 31.4-12; Ne. 10.37,38; 12.44-47; 13.10ss e Ml. 3.6-12).

Como não é muito detalhada a lei referente aos dízimos, existem análises distintas e, às vezes, contraditórias, que serão citadas para melhor ilustrar a complexidade referente à lei dos dízimos.

Nos escritos de Josefo há referência a três dízimos distintos: um para manutenção dos levitas, outro para a manutenção das festas religiosas; e, a cada três anos, para sustento dos pobres. Tobias 1.7,8 é um trecho que dá a entender a mesma coisa. Já nos escritos de Maimônades é mencionada a existência de dois dízimos, sendo o segundo dízimo do terceiro e do sexto ano distribuído entre os pobres e os levitas.

Como já foi dito, o significado do "dízimo dos israelitas" tem diferentes nuances, "é uma oferta que reconhece a propriedade da terra e seus frutos da parte de Deus, um meio para o sustento dos levitas e uma oferta para a caridade" (IDB, "Tithe", IV, 655). O inadimplemento do dízimo era considerado como roubar a Javé (Ml. 3.8-10). Dar o dízimo traria bênção divina (Dt. 14.29; 26.25); e retê-lo traria maldição divina (Ml. 3.8-10).


1.3. O DÍZIMO NA LITERATURA SECULAR

Embora formasse uma parte importante da cultura israelita, sendo daí mais conhecida, a adoção do sistema do "dízimo" como forma de contribuição sagrada (sustento dos cultos e sacerdotes) ou política (imposto pago ao rei pelo povo, ou cobrado pelo conquistador das nações conquistadas) é muito antiga e difundida, sendo encontrada em literaturas seculares. Há registros do pagamento de dízimos como prática na história dos egípcios, dos gregos, dos cartagineses, dos romanos e dos árabes. Mais freqüentemente, o dízimo era uma combinação do secular com o sagrado, como era o caso dos caldeus, persas, romanos, entre outros.
Há relatos que na Babilônia, durante o reinado de Nabuconodosor II, todos, inclusive o rei, pagavam um dízimo da terra ao templo e, ao mesmo tempo, os reis babilônicos cobravam o dízimo de todas as importações. Ciro, o persa, obrigou seus soldados a darem a Zeus o dízimo de seus despojos. Na Grécia e em Roma, segundo Pausânias (séc. II d.C.), havia um dízimo como imposto sobre as terras, que ocasionalmente se dedicava aos deuses.
Como exemplos do dízimo usado apenas no aspecto religioso ou sagrado, temos relatos de que Agamenon, ao conquistar Micena, dedicou um dízimo aos deuses e de que os lipários conquistaram os etruscos, dando dízimo em Delfos.















CAPÍTULO 2


DÍZIMO NO PERÍODO INTERBÍBLICO

INTRODUÇÃO

Etimologicamente, "interbíblico" significa "entre a Bíblia", ou, para melhor compreensão, entre os dois Testamentos. Constitui-se no período compreendido entre o Antigo e o Novo Testamento, representado por uma ou mais páginas em branco nas Bíblias atuais. Quem desconhece a história não sabe que esse intervalo representa um largo período de tempo que, segundo as melhores informações históricas hodiernamente aceitas, durou cerca de 400 anos e foi marcada por grandes transformações na história de Israel. Nesse intervalo, o Judaísmo foi estabelecido definitivamente como religião pelos israelitas, o que se iniciou no final do Antigo Testamento, no cativeiro assírio-babilônico, e foi caracterizado pela volta aos ensinamentos e observância da Tora, pela instituição das sinagogas, pelo retorno ao monoteísmo, entre outras características que viriam a influenciar o Cristianismo.


2.1. A INFLUÊNCIA DO HELENISMO NA CULTURA JUDAICA

Quando a história do Antigo Testamento encerrou-se, a comunidade hebraica encontrava-se disciplinada, dividida e esperançosa. Muitos israelitas haviam retornado do exílio e estavam adorando a Deus em Jerusalém, mas a maioria havia ficado na Pérsia, e ainda outros tinham se estabelecido no Egito e em outros lugares. Essa dispersão do povo judaico é conhecida como "Diáspora". Mas, apesar de tudo, o povo não havia abandonado sua fé e esperança. E uma grande expectativa começava a se desenvolver acerca da vinda do Messias, que iria cumprir os propósitos de Deus para a salvação do seu povo e traria o novo e ansiado êxodo.

Nesse período de 400 anos, os judeus testemunharam drásticas mudanças nas culturas circunvizinhas e, inevitavelmente, também sofreram uma grande transformação interna. O Império Persa havia desabado diante das conquistas de Alexandre, o Grande. Na última terceira parte do século IV a.C., Alexandre trouxe a cultura grega, ou o "Helenismo", para os lugares que conquistou, incluindo parte do Oriente Médio. Depois disso, a vida do povo judeu foi intensamente marcada pelo confronto com a cultura grega.

Após a morte da Alexandre, o Grande, a Palestina ficou debaixo do governo de um dos seus generais gregos, Ptolomeu. Nesse tempo, os judeus, aparentemente, conservavam liberdade para praticar sua religião e para manter, até certo ponto, um governo autônomo, exercido pelo sumo sacerdote. Mas, ao mesmo tempo, estando na capital de uma cidade de cultura pagã, a colônia judaica, mesmo fortalecida, se sentiu cada vez mais pressionada a adotar o estilo de vida grego. Alguns intelectuais judeus tentaram combinar o Judaísmo com a Filosofia grega, culminando nas interpretações alegóricas de Filo de Alexandria. Nesse período, foi produzida a Septuaginta.

Em 198 a.C., o governador selêucida Antíoco III ocupou o território palestino, sendo que, em 175 a.C., a Judéia se encontrou num dos períodos de maior dificuldade. Iniciou-se o avanço do Império Romano, o que preocupava Antíoco, também conhecido como Epifânio ("Deus manifesto"). Foi intensificado o processo de helenização da Palestina. Alguns judeus acolheram a nova cultura, a ponto de rejeitar a sua identidade religiosa. Tal apostasia fortaleceu outros judeus a resistirem à política de Antíoco. Este não havia entendido o caráter religioso do Judaísmo e desencadeou uma terrível perseguição religiosa, chegando a profanar o Templo ao nele colocar uma estátua de Zeus, e sacrificando-lhe porcos. Após a profanação do Templo, iniciou-se a Revolta dos Macabeus, saindo vitoriosos ao ocuparem Jerusalém e rededicarem o Templo a Javé. Depois, lutaram para recuperar a liberdade política e, em 142 a.C., a Judéia tornou-se independente.

Mas a luta contra a helenização não havia terminado. Jônatas Macabeus havia se tornado sumo sacerdote, apesar de não pertencer à linhagem apropriada, o que levou um grupo de judeus ortodoxos a estabelecer a comunidade dos essênios de Qumran. Os governadores hasmoneanos (macabeus) dominaram definitivamente o sacerdócio. Progressivamente, foram adotando o estilo de vida grego. Recebiam o apoio dos saduceus, que visavam preservar a estabilidade política e rejeitavam a ressurreição. Já os fariseus, apesar de não serem primariamente um grupo político, podem ser considerados partido de oposição. Protestaram contra a helenização da vida judaica, formaram uma tradição oral extensiva e procuraram preservar a pureza das regras do Judaísmo. Mas, através de suas interpretações da lei, adulteraram muitos princípios bíblicos, baixando o padrão de comprometimento requerido por Deus e nutrindo a ilusão de que o povo podia agradar a Deus por esforço próprio (Mc. 7.1-13; Lc. 18.9-14).

Em 63 a.C., o general romano Pompeu invadiu Jerusalém, pois a dinastia hasmoneana estava enfraquecida por lutas internas. Assim, quando a história do Novo Testamento se inicia, os judeus estão submetidos ao Império Romano. Governados por "Herodes, o Grande", personagem capaz, porém tirânico, esperavam por uma salvação que ainda não havia chegado.


2.2. O DÍZIMO NO PERÍODO INTERBÍBLICO

Como nesse período houve uma volta à observância da Torá, apesar da extensa tradição oral criada pelos fariseus de acordo com interesses próprios, o dízimo continuava a ser a principal fonte de renda dos sacerdotes e levitas, embora, assim como no Antigo Testamento, ficou freqüentemente sem ser entregue. Havia também arbitrariedade em sua cobrança. Depois da destruição do Templo, os rabinos ressaltaram sua importância. Em seu livro, G. H. Hawthorne cita que os mesmos "consideravam-no (o dízimo) como sendo um dos três elementos mediante o mérito o mundo foi criado (Gn R. 1,6), e como meio pelo qual os israelitas escapavam à sorte dos ímpios ( Jewish Encyclopedia, XII, 151b)".

Havia essa ênfase sobre os dízimos em especial entre os fariseus, que gozavam de grande prestígio entre o povo por serem considerados grandes mestres, homens piedosos e de muito zelo pela Lei e pelas tradições. Segundo Enéas Tognini no livro O Período Interbíblico, "... fora de sua própria casa, só comiam em casa de outro fariseu, receosos de que o alimento que iriam tomar não fora dizimado. Eram minuciosos na prática do dízimo. Dizimavam tudo, até o endro, o cominho, a hortelã, as coisas mais pequeninas. Para o fariseu, o dízimo completamente pago era sinal de lealdade a Deus".

Nesse período, portanto, observa-se que houve uma acentuada atenção a alguns aspectos específicos da Lei, entre eles o dízimo, em detrimento a outros, o que fez com que este assunto fosse citado posteriormente por Jesus, pois já havia se tornado apenas ritual.









































CAPÍTULO 3


DÍZIMO NO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO

No Novo Testamento há duas formas verbais e uma nominal para a palavra dízimo:
1. Dekatóo - "dar uma décima parte", "dizimar", que aparece somente duas vezes: Hb. 7.6,9.
2. Apodekatóo - "dar uma décima parte", "dizimar", que no grego é uma forma composta da primeira e figura três vezes: Mt. 23.23; Lc.11.42; Hb. 7.5.
3. Dekáte - "décimo", uma forma ordinal, usada apenas em Hb. 7.2,4,8,9.


3.1. O DÍZIMO NOS EVANGELHOS

É interessante notar que o dízimo não é mencionado por Jesus em nenhum momento como instrução dada a seus discípulos. Em algumas poucas situações Ele faz menção do dízimo sempre como censura aos religiosos que colocavam a Lei e o ritual como mais importante que seu relacionamento com Deus e sua atitude para com o próximo.

Nos Evangelhos de Lucas (11.42) e de Mateus (23.23), Jesus adverte: "Mas ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque dais do dízimo do hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!" - aqui Jesus fala aos religiosos da época mostrando que o dízimo era importante e deveria ser cumprido, mas não tinha valor se não fossem observados preceitos que eram a essência da Lei; isto é, não adiantava ser cumprida a lei, dizimar até de pequenos temperos se a motivação não fosse correta, se não houvesse justiça, misericórdia e fé. Assim, o interior é mais importante que o exterior, o motivo de dizimar é mais importante que o próprio dízimo.

Em Lucas 18.9-14, Jesus propõe uma parábola onde um fariseu jejuava duas vezes por semana, entregava o dízimo de tudo, mas desceu para sua casa sem ser justificado. Sua oração não teve valor diante de Deus devido seu orgulho, autojustificação e falta de fé. É mais um relato de que o dízimo legalista, sem fé não é bênção. "Ele dava seus dízimos, mas não dava o coração, não dava a fé", conforme cita J. F. Sobrinho em seu livro Dízimo e Bênção.

A análise que pode ser feita a partir dessas passagens bíblicas é que a maneira de prestar culto a Deus através da entrega dos dízimos já havia se tornado prática apenas ritualística, como as demais leis entregues aos hebreus através de Moisés. A nação de Israel havia se afastado de Deus e o povo julgava a fidelidade a Deus somente pelo cumprimento externo da Lei.

Outro elemento importante na vida e ensinamento de Jesus é sobre a Antiga e a Nova Aliança, a Lei e a Graça, o Antigo e o Novo Testamento. Mas, quando passou a vigorar a Nova Aliança? Hebreus diz: "Porque, onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador; pois um testador só é confirmado no caso de mortos; visto de que maneira nenhuma tem força de lei enquanto viver o testador" (Hb. 9.16-17). Em Mt. 27.50 está escrito sobre as últimas palavras de Jesus na ceia: "Porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados".
Pode-se afirmar, portanto, que os Evangelhos retratam relatos da Antiga Aliança, iniciando a Nova Aliança com a morte de Jesus.


3.2. O DÍZIMO NAS EPÍSTOLAS

No Novo Testamento, além das passagens citadas nos Evangelhos, é feita referência ao dízimo apenas no capítulo 7 do livro de Hebreus. Este capítulo trata da superioridade do sacerdócio de Cristo na Nova Aliança sobre o sacerdócio levítico na Antiga Aliança.

"Porque este Melquisedeque, rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraão, quando voltava da matança dos reis, e o abençoou, para o qual Abraão separou o dízimo de tudo (primeiramente se interpreta rei da justiça, depois também é rei de Salém, ou seja, rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia; que não teve princípio de dias, nem fim de existência, entretanto, feito semelhante ao Filho de Deus), permanece sacerdote perpetuamente.
Considerai, pois, como era grande esse a quem Abraão, o patriarca, pagou o dízimo tirado dos melhores despojos. Ora, os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm o mandamento de recolher, de acordo com a lei, os dízimos do povo, ou seja, dos seus irmãos, embora tenham estes descendidos de Abraão; entretanto, aquele cuja genealogia não se inclui entre eles recebeu dízimos de Abraão e abençoou o que tinha as promessas. Evidentemente, é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior. Aliás, aqui, são os homens mortais que recebem dízimos, porém ali, aquele de quem se testifica que vive. E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos, pagou-os na pessoa de Abraão. Porque aquele ainda não tinha sido gerado por seu pai, quando Melquisedeque saiu ao encontro deste." (Hb. 7.1-10)

Entre outras citações, o autor fala da superioridade do sacerdócio de Melquisedeque (e de Cristo) sobre o de Levi. Observa-se o seguinte:
1. Levi é descendente de Abraão;
2. Abraão deu o dízimo a Melquisedeque, logo este é superior a Abraão e a seu descendente Levi (vers. 7);
3. Jesus é sacerdote da mesma ordem de Melquisedeque;
4. O sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio de Levi.

A análise desse texto considera que a Antiga Aliança era infinitamente inferior à Nova Aliança, a qual foi feita com base no sacrifício de Jesus. Portanto, o dízimo da Antiga Aliança encerrou-se na morte de Cristo. Mas, o mesmo Cristo foi constituído sacerdote, "não conforme a lei de mandamento carnal, mas segundo o poder de vida indissolúvel" (Hb. 7.16). Sacerdócio este segundo a ordem de Melquisedeque, que recebeu o dízimo de Abraão, o Pai da Fé. Assim, o escritor de Hebreus mostra Melquisedeque como um tipo de Cristo. Como não há registro do pai e da mãe, ficou como sem genealogia, símbolo do Messias vindouro - sumo sacerdote por toda a eternidade.
Pode-se concluir, até pela ênfase que o autor relata na entrega do dízimo, que hoje o crente deve entregar "seu dízimo" ao sumo sacerdote, Jesus Cristo. Isso tem um significado muito mais amplo, pois a graça é justamente isso, a ampliação da lei; a lei era limitada, e "nunca aperfeiçoou coisa alguma" (Hb. 7.19). Já com Jesus, o sacerdote perfeito e imutável, o conceito de dízimo passa para o de uma entrega também superior, não com ordenanças externas, mas com comprometimento interno, do coração. Isso pode significar que não somente os rendimentos financeiros do cristão devam ser entregues a Cristo, mas toda a sua vida, o que torna a questão do dízimo muito mais simples, por não ser obrigatória, porém muito mais comprometedora, por necessitar de fé e envolvimento no Reino de Deus.


3.3. O DÍZIMO NA IGREJA PRIMITIVA (LIVRO DOS ATOS DOS APÓSTOLOS)

No Novo Testamento, em especial no livro de Atos dos Apóstolos, que relata o início da Igreja Primitiva, não é encontrada nenhuma referência aos dízimos. Observa-se, no entanto, que os discípulos de Jesus continuavam a freqüentar o templo judaico (cf. At. 3.1) e com certeza ainda cumprindo muito da lei (cf. At.15). É bem provável que muitos continuaram a dizimar, podendo ter passado essa tradição a alguns gentios, ficando, assim, a prática de entregar os dízimos como parte da tradição da Igreja.

Essa possibilidade é defendida por alguns intérpretes baseada nos Mandamentos da Igreja Católica Apostólica Romana. Segundo José Haical Haddad, "até bem pouco tempo o Quinto Mandamento da Igreja determinava:"Pagar o dízimo conforme o costume". A expressão "segundo o costume" caracteriza bem que a denominação dízimo permaneceu em uso...".

Também segundo o livro Doutrina Católica Compendiada Hoje para Adultos, do Padre Luiz G. da Silveira d'Elboux, "o 5º Mandamento: Pagar os dízimos conforme o costume, nos manda contribuir para as despesas do culto e sustento dos Ministros do altar, na forma que se costuma ou que os Bispos determinem. Trata-se de um dever, imposto pelo próprio Direito natural e divino, como lembra o apóstolo São Paulo (I Co. 9.13-14): quem serve ao altar e trabalha na evangelização do povo merece viver do altar e do Evangelho, sem precisar perder o seu tempo numa profissão secular remunerada (Prsbyterorum Ordinis 20)".

Após relato do dízimo nas diversas divisões neotestamentárias, conclui-se que a Bíblia não nos fornece, no Novo Testamento, qualquer instrução a respeito da entrega dos dízimos. Muitos estudiosos acreditam que este silêncio é proposital, levando a entender que o crente não está sob a Lei incluindo a questão dos dízimos. Mas, de acordo de R. N. Champlin, na Enciclopédia de Bíblia Teologia e Filosofia, "... outros eruditos opinam que o silêncio das Escrituras, nesse caso, é circunstancial, pelo que não teria qualquer significado. Nesse caso, poderíamos supor que a legislação veterotestamentária continua a vigorar nos dias do Novo Testamento. Isso, entretanto, é uma precária proposição teológica, se levarmos em conta tudo quanto Paulo disse sobre o fato de que não estamos debaixo da lei".


3.4. CONTRIBUIÇÃO FINANCEIRA NO NOVO TESTAMENTO

No Novo Testamento observa-se o ponto culminante da Bíblia: o sacrifício de Jesus, oferecido perpetuamente, através do sangue e que simboliza a Nova Aliança. A Antiga Aliança, inferior e que apontava para Cristo, agora é substituída por uma aliança perpétua e real. Toda a contribuição financeira passa a fazer parte de um Reino Espiritual com uma grande e urgente missão.
As contribuições feitas na Igreja não são impostos pagos num sistema teocrático. O Novo Testamento ensina sobre a importância da contribuição para cumprir o propósito de Deus aqui na terra. Cada cristão verdadeiro tem desejo de colaborar por amar o Evangelho e a sua propagação.

Com exceção dos versículos citados nos subtítulos acima, no Novo Testamento não é encontrada referência acerca do dízimo, observa-se apenas a instrução de ofertar com liberalidade, sinceridade e amor.

"Quanto à coleta para os santos, fazei vós também como ordenei às igrejas da Galácia. No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte, em casa, conforme a sua prosperidade, e vá juntando para que se não façam coletas quando eu for. E, quando tiver chegado, enviarei, com cartas, para levarem as vossas dádivas a Jerusalém, aqueles que aprovardes. Se convier que eu também vá, eles irão comigo" (I Co. 16.1-4).

"Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza de sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus; o que nos levou a recomendar a Tito que, como começou, assim também complete esta graça entre vós. Como, porém, em tudo, manifestais superabundância, tanto na fé e na palavra como no saber, e em todo cuidado, e em nosso amor para convosco, assim também abundeis nesta graça.
Não vos falo na forma de mandamento, mas para provar, pela diligência de outros, a sinceridade de vosso amor; pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos.
E nisto dou minha opinião; pois a vós outros, que, desde o ano passado, principiastes não só a prática, mas também o querer, convém isto. Completai, agora, a obra começada, para que, assim como revelastes prontidão no querer, assim a leveis a termo, segundo as vossas posses. Porque, se há boa vontade, será aceita conforme o que o homem tem e não segundo o que ele não tem.
Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga, mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta" (II Co. 8.1-15).

"E isto afirmo: aquele que semeia pouco pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a aquém dá com alegria. Deus pode fazer-nos abundar em toda graça, afim de que tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra, como está escrito: Distribuiu, deu aos pobres, a sua justiça permanece para sempre.
Ora, aquele que dá semente ao que semeia e pão para alimento também suprirá e aumentará a vossa sementeira e multiplicará os frutos da vossa justiça, enriquecendo-os, em tudo, para toda generosidade, a qual faz que, por nosso intermédio, sejam tributadas graças a Deus.
Porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus, visto como, na prova desta ministração, glorificam a Deus pela obediência da vossa confissão quanto ao Evangelho de Cristo e pela liberalidade com que contribuís para eles e para todos, enquanto oram eles a vosso favor, com grande afeto, em virtude da superabundante graça de Deus que há em vós. Graças a Deus pelo seu dom inefável!" (II Co. 9.6-15).

Diante das citações acima, podem-se fazer algumas observações importantes a respeito das instruções dadas aos cristãos em relação à contribuição financeira na igreja:

1. Conforme a sua prosperidade (I Co. 16.2): embora este texto trate de uma necessidade específica (os santos necessitados em Jerusalém), ensina um princípio importante para a contribuição na igreja. Deve-se dar segundo a prosperidade, ou seja, de forma proporcional. Qualquer servo do Senhor que goze de alguma prosperidade é chamado a contribuir financeiramente. Também em II Co. 8.11 é citada a contribuição como sendo "segundo as vossas posses". Há ainda o relato em II Co. 8.3 dos que participaram com contribuições "na medida de suas posses e mesmo acima delas" - e isto de maneira voluntária.

2. Com amor sincero (II Co. 8.8): aqui Paulo afirma que a motivação maior do cristão ao contribuir deve ser o amor sincero, verdadeiro. O amor é citado inúmeras vezes nas Escrituras como o motivo de nosso serviço ao Senhor, e isto inclui a contribuição financeira. O cristão com alguma prosperidade ou com posses é constrangido a contribuir, mas a obrigação não pode ser o principal motivo.

3. Segundo tiver proposto no coração (II Co. 9.7): o amor, a generosidade e a prontidão para a obra do Senhor são características do servo de Deus. Antes de contribuir com o dinheiro, este deve ser consagrado ao Senhor (II Co. 8.5).

4. Com alegria (II Co. 9.7): Deus sonda e conhece cada coração, e Sua Palavra afirma que Deus ama aquele que se alegra em contribuir para Seu Reino.

5. Para participar da graça de Deus (II Co. 8.4): a tendência do homem é pensar em graças concedidas para seu próprio desfrute, mas, biblicamente, graças concedidas são oportunidades para servir e glorificar o nome do Senhor. O privilégio de participar do trabalho do Reino de Deus é uma enorme bênção. E isso também inclui abrir novas frentes de trabalho evangelístico, investir em ensino, na ampliação do templo, na capacitação de novos ministros do Evangelho, entre outras oportunidades.

6. Para completar a obra começada (II Co. 8.11): uma igreja no molde do Novo Testamento naturalmente assume compromissos. E tudo deve ser feito para que aquilo que se planejou seja cumprido. Além de cuidar dos santos necessitados (vide At. 4.32-37; 6.1-7), uma igreja que entende sua missão se dedica à proclamação do Evangelho, à edificação dos santos, ao sustento de ministros da Palavra que se dedicam ao trabalho do Senhor (I Co. 9.4-14; II Co. 11.8; Fp. 4.10, 15-18, I Tm. 5.17,18). Uma vez que a igreja local aceita a responsabilidade de sustentar homens de Deus, ela precisa se esforçar para completar a obra, cumprindo o que combinou previamente e honrando, assim, o ministro e o próprio Deus. Em Ne. 13.10-11 Neemias repreende fortemente o povo que não havia cumprido seus compromissos e deixou os servos de Deus desamparados.

7. Como sacrifício aceitável e aprazível a Deus (Fp. 4.17-18): a contribuição do cristão não pode ser apenas o que sobra depois de satisfazer o seu desejo próprio. Aqueles que sempre querem receber, ao invés de dar liberalmente, não servem a Cristo (Tg. 4.1-4). Paulo diz que as ofertas são sacrifícios, dinheiro que o cristão deixa de empregar em seu próprio benefício para entregar ao Senhor, beneficiando a muitos.

Diante dos ensinamentos bíblicos sobre contribuição financeira acima expostos, podem-se analisar alguns aspectos práticos à luz do Novo Testamento:

1. Periodicidade: em termos de contribuição financeira, a única passagem que fala sobre quando fazê-la é I Co. 16.1,2. Cada discípulo viria preparado para ofertar no primeiro dia da semana, o mesmo dia que reuniam para participar da Ceia do Senhor (At. 20.7).

2. Valor: já foi observado que a lei do dízimo fazia parte da Antiga Aliança, mas antes de ser aplicada a liberdade que o cristão tem em Cristo, deve-se lembrar que liberdade pressupõe escolha com responsabilidade. Assim, alguns pontos sobre o nosso serviço a Cristo no Novo Testamento devem ser considerados:
- O dízimo foi anterior à lei e, no caso da nação de Israel, foi instituído pelo próprio Deus. Todo princípio de Deus é bom, mesmo que nem todos sirvam para todos os povos em todas as épocas. E o dízimo é princípio de Deus.
- A missão da Igreja na Nova Aliança é maior e mais abrangente, gerando compromisso e responsabilidade.
- As bênçãos em Cristo são superiores às bênçãos do Antigo Testamento, pois estas eram bênçãos materiais e condicionais, e aquelas são espirituais.
- Buscar o Reino de Deus deve vir em primeiro lugar; portanto as coisas de Deus devem ser nossas prioridades.
- É mais abençoado dar do que receber.
- Deus ama a quem dá com alegria.

3. Aplicação: o dinheiro entregue na igreja deve ser aplicado exclusivamente nas coisas que Deus autorizou que ela fizesse. As contribuições jamais devem servir a interesses humanos, tudo deve ser usado para o Reino de Deus e para glória do Senhor.

4. Administração: no Novo Testamento, a contribuição financeira sempre foi administrada por homens fiéis e responsáveis. No início, os apóstolos recebiam as ofertas (At. 4.37; 5.2). Mais tarde, os presbíteros recebiam o dinheiro doado (At. 11.30). O trabalho de administrar, supervisionar e guiar a igreja local cabe aos bispos (ou pastores), conforme I Tm. 3.5; 5.17. Em At. 6.1-7, os diáconos, homens sábios, espirituais e de boa reputação foram escolhidos para administrar um aspecto da congregação. Quando dinheiro foi levado de uma cidade para outra, mensageiros fiéis foram eleitos nas igrejas, evitando qualquer tipo de escândalo (II Co. 8.19-23).





























CAPÍTULO 4


DÍZIMO NA HISTÓRIA DA IGREJA

INTRODUÇÃO

Esse período constitui-se em todo o período da Igreja após os relatos no Livro de Atos. Não é encontrado material suficiente para dar um estudo preciso e aprofundado de como esse assunto desenvolveu-se ao longo da história, mas nem mesmo a Reforma foi capaz de colocar fim à prática legalista do dízimo, que retornou após a oficialização da Igreja Católica Apostólica como religião.


4.1. O DÍZIMO NA EXPANSÃO DA IGREJA

Não é encontrada referência a respeito dos dízimos nos escritos dos Pais Apostólicos e dos Apologistas. Como foi explicado no capítulo 3, ainda assim, a contribuição através dos dízimos ainda fazia parte do culto cristão na Igreja Primitiva. G. F. Hawthorne faz alusão ao dízimo na citação de Justino Mártir que cada domingo "aqueles que prosperaram e têm esta vontade, contribuem, cada um na quantidade que quiser. Aquilo que é depositado é depositado com o presidente, e ele cuida dos órfãos e das viúvas, e dos necessitados... e aqueles que estão presos e dos forasteiros que habitam entre nós" (I Apol. 67; cf. também Apost. Const. 2,27).
Para Irineu, o ato de entregar o dízimo faz parte da lei judaica que não se requer dos cristãos, pois os cristãos são livres para colaborarem segundo a sua consciência, dando sem constrangimento externo (Haer. 4, 18, 2).
No mesmo livro acima citado, Hawthorne cita que Orígenes considerava o dízimo como "... algo que deveria ser ultrapassado, de longe, pelos cristãos nas suas distribuições" (In Num. Hom. 11).

Constata-se, portanto, que tanto no Novo Testamento como para os Pais da Igreja, o dízimo era parte da Lei, não sendo obrigatório para os crentes, sendo estes, agora, guiados pela responsabilidade, fé, gratidão e amor a Deus.

Assim, no período primitivo da história da Igreja, a contribuição ainda era voluntária, relacionando-se diretamente com a prosperidade financeira de cada um e sendo, basicamente, para sustento dos necessitados. Pouco, ou nada, se diz sobre como se sustentava os clérigos e a igreja. Supõe-se que eram mantidos pelas ofertas voluntárias daqueles que recebiam a ministração do Evangelho.

Segundo Hawthorne, ainda, "mais tarde, porém, o dízimo foi reintroduzido como meio de sustentar a igreja. Foi reintroduzido, de início, com a ajuda de passagens do Novo Testamento como Mt. 10.10; Lc. 10.7; I Co. 9.3,4, etc. e numa base voluntária. Finalmente, porém, foi necessário o poder civil para impor aquilo que a instrução não conseguiu levar a efeito. O famoso decreto de Carlos Magno ( 785 d.C.) já não dava ao povo uma opção - eram tributados para o sustento da igreja, quer gostassem, quer não."

Com o passar do tempo, o dízimo foi definitivamente incorporado pela Igreja como uma obrigação do fiel.

Nos séculos 5 e 6 encontra-se a prática do dízimo bem estabelecida nas áreas antigas da cristandade do ocidente. No século 8 os soberanos carolíngios tornaram o dízimo eclesiástico parte da lei secular. Á no século 12, os monges que antes tinham sido proibidos de receber dízimos, sendo obrigados a pagá-los, obtiveram permissão para receber dízimos e isenção do pagamento dos mesmos. Os dízimos medievais eram divididos em prediais, pessoais e mistos, cobrados sobre os frutos da terra, dos salários da mão-de-obra e da produção de animais, respectivamente. Na Inglaterra, em especial nos séculos 16 e 17, o dízimo foi uma fonte de conflito intenso, já que a Igreja Estatal dependia deles para sua sobrevivência. Esta questão despertou paixões ferozes, notáveis entre todas a s questões associadas com a guerra civil inglesa. Depois da guerra, o dízimo obrigatório sobreviveu na Inglaterra até o século 20.

Nota-se, portanto, que, até determinado período, a Igreja conseguiu manter-se fiel aos princípios dos seus primeiros apóstolos e pais. No entanto, a partir do momento que se ligou ao Estado, constituindo-se como Igreja oficial, passou a ter necessidades extras para aumentar o poderio e domínio sobre o povo em geral. Surge, assim, a necessidade de decreto oficializando e tornando obrigatório o que devia ser algo voluntário e dirigido à expansão do Reino de Deus. Depois de ter sido incorporada cultural e religiosamente, passa-se a ter a entrega obrigatória do dízimo como "doutrina bíblica", declarando que os não-dizimistas estão entregues às terríveis maldições de Deus, além de estarem em desacordo com as leis da igreja. Então, verdadeiros abusos e erros doutrinários são cometidos, tanto em função da ignorância e falta de questionamento, como da acomodação devido à facilidade de manter financeiramente a instituição religiosa com base no medo. Dois erros são cometidos: a Verdade que liberta não é pregada e mantém-se a confiança no poder de persuasão do líder, esquecendo-se de confiar no Senhor, que também é o Senhor da Igreja.


4.2. O DÍZIMO NA IGREJA ATUAL

Ainda hoje o dízimo continua fazendo parte da doutrina das Igrejas Evangélicas, tanto das tradicionais, renovadas, pentecostais e neopentecostais, ensinando que o cristão precisa contribuir com a décima parte de seus rendimentos brutos para a Igreja.

A base bíblica para tal entendimento é o texto de Ml. 3.8-10 "Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênçãos sem medida". Considerando, ainda, que o dízimo é citado no Antigo Testamento, nos Evangelhos, por Jesus, e no Novo Testamento há concordância quase generalizada entre os evangélicos a respeito da doutrina do dízimo, sendo ele "a parte de Deus", devendo ser devolvido ao templo. O crente arrolado no rol de membros também necessita estar em dia com suas contribuições para participar de cargos e funções da igreja ou simplesmente para pertencer à igreja. Não poucos testemunhos confirmam que dar o dízimo acarreta bênção e o contrário traz maldição.
Os neopentecostais utilizam como base de seus ensinamentos a Teologia da Prosperidade, que prega a prosperidade material e terrena dos fiéis que se voltam a Cristo, através da participação nos cultos e donativos à igreja, promovendo um movimento que agrega multidões que desejam ter seus problemas resolvidos e, para isso, negociam com Deus em nome da fé.

Alguns pastores e líderes mais esclarecidos e seguros, por considerarem esse entendimento errôneo e abusivo, ensinam que o dízimo é um parâmentro de ajuda na manutenção do templo e dos pessoas que lá trabalham, já que todos os membros desfrutam dos serviços e benfeitorias ali realizados. O dízimo, para esses líderes, é considerado uma oferta necessária, consciente e voluntária, não podendo ser condição para beneficiar um ou outro membro em detrimentro do outro.
Ao dizimar ou ofertar, o cristão trabalha alguns aspectos em sua vida, como desprendimento, egoísmo, vaidade, prioridades. Assim, acaba resultando em mudanças nos seus valores e caráter. De uma forma ou de outra, o crente é sempre abençoado. Em Atos 20.35b está escrito: "Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber."


























CONCLUSÃO


Se o dízimo é um ensinamento que vem sendo deturpado, transformando o que deveria ser contribuição voluntária em obrigação desde que a igreja se ligou ao Estado, como a Igreja de Cristo poderia hoje sobreviver sem cobrar sistematicamente dos seus membros o dízimo?

Para tal pergunta e para todas e quaisquer outras dúvidas, a resposta é apenas uma: ensinando a Palavra de Deus, pois a verdade jamais prejudicará a vida da igreja.

Os ensinamentos bíblicos sobre contribuição financeira voluntária mostram que a os cristãos são livres para dar ou não dar, que valor para Deus importa menos que a sinceridade do coração e a vontade de contribuir, que não há patamar mínimo exigido, que Deus ama quem dá com alegria.

Nenhum homem hoje tem o direito de estipular para os outros a quantia ou percentual de renda que o cristão deve contribuir. Mas cada um deve pensar e avaliar bem sobre o privilégio e a responsabilidade de ser participante e contribuinte com o trabalho do Senhor. Conforme pergunta Dennis Allan em seu estudo bíblico "Uma vez que tudo é melhor na Nova Aliança, será que Deus quer que demos ofertas menores?".

O cristão não é chamado a barganhar com Deus, a dar pensando em quanto Ele multiplicará sua vida financeira. O cristão é chamado a se relacionar intimamente com seu Pai, a fazer o melhor para Ele, a serví-Lo com amor e singeleza de coração. O Senhor não cobra além da possibilidade de cada um. Jesus honrou a viúva pobre ao dizer a Seus discípulos: "Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofiláceo mais do que fizeram todos os ofertantes. Porque todos eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza, deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento" (Mc 12.43,44). Mas, mesmo sem exigir sacrifícios, Ele é fiel e nos abençoa com muito mais do que pensamos e pedimos, conforme o Seu poder que opera em nós.

Apesar de Deus não habitar em templos feitos por homens, a igreja local é, ou deve ser, o ajuntamento do Seu povo, local abençoador de inúmeras vidas, onde se prega e se ensina a viver a Sua Palavra, de onde missionários são enviados para propagar o Evangelho. Pode-se dizer que é a "casa" de Deus. Assim, investir com alegria na igreja local é investir no Reino de Deus e cumprir o Seu propósito. Os erros e abusos cometidos por muitos estarão sendo julgados por Deus. Aos cristãos, cabe usar os critérios bíblicos e o discernimento do Espírito.





Rosane Itaborai Pereira Moreira